No Brasil, pagar alguém leva três segundos e não custa nada para quem paga. Nos Estados Unidos, a maior economia do mundo, não existe nada parecido no dia a dia. A falta pesa mais sobre os mais de 70 milhões de latinos que vivem no país — sobretudo sobre quem não tem conta em banco, que paga mais caro para receber, para pagar e para mandar dinheiro para a família. E, em julho de 2026, o governo americano transformou o Pix em motivo de tarifa contra o Brasil.
Todos os números deste texto são declarados: vêm de órgãos oficiais, de estudos e de empresas, e a Korun não os mediu. Cada um diz de onde veio.
Vinte minutos contra três meses
Em 2025, o Pix fez cerca de 80 bilhões de transações e foi usado por 148 milhões de pessoas — 86% dos adultos brasileiros. declarado · Banco Central do Brasil, 2026 No segundo semestre daquele ano, já respondia por mais da metade de todas as transações de pagamento do país: 54,7%, contra 30,4% dos cartões. declarado · Banco Central do Brasil
Os Estados Unidos também têm um sistema instantâneo do banco central, o FedNow, lançado em 2023. No primeiro trimestre de 2026 ele fez 2,73 milhões de transações. declarado · Federal Reserve de Richmond, 2026 No ritmo médio de 2025, o Pix faz isso em cerca de 20 minutos.
A diferença não é só de tamanho. O valor médio de um pagamento no FedNow passa de US$ 99 mil; o de um Pix é de R$ 456. O sistema americano está sendo usado para mover grandes valores entre empresas, não para pagar a manicure ou o eletricista. Só uma em cada cinco instituições financeiras americanas está conectada a ele, e não há chave nem QR Code universais.
O que mais se parece com o Pix no jeito de usar é o Zelle, aplicativo dos bancos que movimentou US$ 1,2 trilhão em 2025. declarado · Early Warning, dona do Zelle Mas ele pertence aos bancos e exige conta bancária americana dos dois lados — justamente o que parte dos latinos não tem.
O governo americano mirou o Pix
Em 15 de julho de 2025, o escritório de comércio da Casa Branca abriu uma investigação contra o Brasil por práticas consideradas desleais, citando “serviços de pagamento eletrônico” desenvolvidos pelo governo. Um ano depois, em 15 de julho de 2026, veio a decisão: tarifa de 25% sobre a maior parte das importações brasileiras, desde 22 de julho de 2026. declarado · Federal Register, 2025 e 2026 O Brasil levou o caso à Organização Mundial do Comércio em 27 de julho.
Segundo análise do Atlantic Council, a decisão aponta como desleais quatro práticas do Pix: a participação obrigatória dos grandes bancos, o destaque do Pix dentro dos aplicativos, a gratuidade para a pessoa física e o teto de tarifa para empresas. declarado · Atlantic Council, 2026
Há uma ironia aí. Essas quatro práticas são as mesmas que os estudos apontam como a razão do sucesso do Pix. Uma pesquisa do BIS, o banco dos bancos centrais, com 86 mil aplicativos em 95 países, mostrou que sistemas instantâneos aumentam o uso de serviços financeiros digitais, sobretudo em países mais pobres — e que o efeito é maior quando o banco central participa ativamente e a entrada é aberta. declarado · BIS Working Paper 1228, 2024 Outro estudo comparou três países: o Pix e o sistema da Costa Rica chegaram a quase todas as faixas de renda em cinco anos; o do México, não. declarado · IMF Economic Review, 2026 Não basta existir um sistema instantâneo. O desenho decide se ele pega.
Mais de 70 milhões de latinos, e muitos fora do banco
Os hispânicos são 21% da população americana. declarado · Censo dos EUA, 2025 Se fossem um país, a economia latina dos EUA — US$ 4,4 trilhões em 2024 — seria a quarta maior do mundo, segundo um estudo patrocinado que é estimativa, não estatística oficial. declarado · Latino Donor Collaborative e Universidade Estadual do Arizona, 2026
Ainda assim, 9,5% das famílias hispânicas não têm conta em banco, contra 1,9% das famílias brancas. E mais de uma em cada cinco é “sub-bancarizada”: tem conta, mas ainda depende de desconto de cheque, ordem de pagamento e outros serviços caros fora do banco. declarado · FDIC, pesquisa de 2023 O motivo mais citado por quem não tem conta, entre todas as famílias, é não ter dinheiro para o saldo mínimo. Depois vêm a desconfiança dos bancos, a privacidade, as tarifas e a falta de documento.
Mandar dinheiro para casa custa caro — e ficou mais caro para quem não tem banco
Em 2025, as remessas para a América Latina e o Caribe bateram recorde: US$ 173,7 bilhões. declarado · BID, 2026 Boa parte do salto veio de envios preventivos, feitos por medo de deportação. O México foi a exceção: caiu 4,6%, a primeira queda em 11 anos, porque houve menos gente enviando. declarado · Banco de México, 2026
Enviar US$ 200 custa em média 6,36% no mundo — mais que o dobro da meta da ONU, de 3% até 2030. Pelo banco, o custo chega a 14,99%; por aplicativo só digital, cai para 3,55%. declarado · Banco Mundial, 2025 Parte do custo fica escondida na cotação do câmbio, e o órgão americano de defesa do consumidor financeiro já avisou que anunciar “sem tarifa” e cobrar no câmbio pode ser enganoso.
Desde 1º de janeiro de 2026, os EUA cobram 1% de imposto sobre remessas pagas em dinheiro vivo, ordem de pagamento ou cheque. Quem paga a partir de conta bancária ou cartão americano está isento. declarado · Receita dos EUA e Tesouro, 2026 Na prática, o imposto recai sobre quem não tem banco. E as estatísticas oficiais não conseguem medir o efeito: o banco central do México registra 99,1% das remessas como eletrônicas porque olha como o dinheiro chega, não como o remetente pagou nos EUA.
Quem está tentando preencher o vazio
Um grupo de empresas nasceu ou cresceu para atender esse público. Os números abaixo são informados por elas mesmas.
- Remitly, remessa por aplicativo: US$ 74,9 bilhões enviados em 2025 e mais de 10 milhões de clientes ativos em 2026.
- Félix Pago, remessa conversando com um robô no WhatsApp, em espanhol: captou US$ 200 milhões em setembro de 2026 e diz ter 6 milhões de usuários.
- Común, conta digital aberta com documentos latino-americanos, sem número de Seguro Social: 276 mil contas e receita que mais que dobrou em 2025.
- Nubank, que estreou em Miami em 10 de setembro de 2026 com transferência sem tarifa para o Brasil e o México, mirando hispânicos. Sete dias antes, o Revolut recebeu aprovação condicional para ser banco nos EUA; no México, já oferece remessa grátis de e para os EUA. declarado · imprensa e regulador bancário dos EUA, 2026
- Western Union, a maior rede de remessa paga em espécie — justamente a parte atingida pelo imposto —, tenta comprar a Intermex por cerca de US$ 500 milhões, mas o negócio está travado na Califórnia desde agosto de 2026.
E, enquanto o governo americano pune o Pix, lojas, hotéis e restaurantes de Miami e Orlando instalam maquininhas para aceitar Pix de turista brasileiro, desde julho de 2025. declarado · Verifone e PagBrasil
Há um sinal de alerta: pelo menos seis bancos digitais voltados a comunidades específicas fecharam ou foram vendidos em quatro anos. declarado · Forbes, 2026
O buraco que continua aberto: o pequeno negócio
Quase todas essas empresas cuidam da pessoa: a conta, o cartão, a remessa. O pequeno negócio latino — o eletricista, a manicure, o food truck, o consultório — continua sem um jeito instantâneo e barato de receber do cliente. O cartão custa ao lojista de 2% a 3% mais uma tarifa fixa, segundo empresas do setor; o sistema público instantâneo ainda não chegou ao balcão; e o aplicativo dos bancos exige conta dos dois lados. Não encontramos nenhum banco para imigrantes oferecendo recebimento para o comerciante — o que não prova que não exista.
A solução que avança é privada e usa moedas digitais atreladas ao dólar. Ela resolve a remessa da pessoa, não o caixa da loja.
O que ainda não se sabe
- Quanto os latinos usam Zelle, Venmo e Cash App.
- Quanto custa, em dólares por ano, viver sem conta em banco.
- Como o pequeno negócio latino recebe hoje: dinheiro, aplicativo ou cartão.
- Se o medo de deportação em 2025 e 2026 fez famílias sacarem dinheiro ou evitarem abrir conta.
- Se o imposto de 1% empurrou remessas para fora do sistema.
São perguntas que nenhuma estatística oficial responde hoje, e que só a medição feita no próprio site de quem vende começa a responder.
Limites declarados
- Nenhum número deste artigo foi medido pela Korun. Todos são declarados por órgãos oficiais, estudos, imprensa ou empresas, e cada um diz a fonte.
- Os números foram apurados em 24 de setembro de 2026 a partir de resumos publicados pelas próprias fontes e pela imprensa; nem todos foram conferidos no documento original. Antes de citar um número, confira na fonte.
- A comparação entre o Pix e o FedNow usa períodos diferentes. Serve para mostrar a escala, não para cálculo exato.
- Os números de empresas podem ter interesse comercial, e o valor da economia latina é estimativa de um estudo patrocinado.
- A taxa de famílias hispânicas sem conta é de 2023, a pesquisa oficial mais recente encontrada.
Critério de queda: este texto estará errado se a próxima pesquisa da FDIC mostrar a taxa de famílias hispânicas sem conta perto da das brancas, ou se um sistema público instantâneo passar a ser usado no varejo americano — com valor médio de algumas centenas de dólares e a maioria das instituições conectada. Nesse caso, o buraco descrito aqui terá fechado.
Como citar
“Os Estados Unidos têm mais de 70 milhões de latinos e nenhum sistema público de pagamento instantâneo usado no dia a dia: o FedNow levou três meses para fazer o que o Pix faz em cerca de 20 minutos, 9,5% das famílias hispânicas não têm conta em banco, e desde 2026 quem manda dinheiro para casa pagando em espécie paga 1% de imposto.” Ao citar, mantenha a palavra declarado: os números são de fontes públicas, apurados em 24 de setembro de 2026, e não foram medidos pela Korun.
Onde isto vive
Na pesquisa 062 da Korun, com cada número, a fonte e o grau de confiança. Fontes principais: Banco Central do Brasil (Relatório de Gestão do Pix, 2026); Federal Reserve de Richmond (FedNow, 2026); Federal Register (investigação e tarifa contra o Brasil, 2025 e 2026); Censo dos EUA (2025); FDIC (pesquisa de famílias sem banco, 2023); BID e Banco de México (remessas, 2026); Banco Mundial (custo das remessas, 2025); Receita dos EUA e Tesouro (imposto sobre remessas, 2026); BIS e IMF Economic Review (estudos sobre o Pix).
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